Quinta-feira, Janeiro 15, 2009

Última Mensagem

Eu ensaiei um discurso, e até o escrevi. Mas, quando pronto, me pareceu raso ou alguma espécie de coisa artificial que não vinha de dentro. E, eu não quero mais me privar das emoções que sinto, ou transparecer o que sinto de maneira errada, não verossímil, como se fosse um rompante bobo de um momento adolescente que tenha passado por cá. Tudo foi pensado, sentido e calculado. E só posso comunicar-lhes de maneira sintética e fria e sem muitas explicações. Quase no silêncio.

A Desvairada Literata não existe mais, para que a escritora Ivy Exner ou Ivy Exner Martins (porque ainda tenho crises sobre qual nome de fato irei adotar) tome um rumo na vida. Não quero falar dos meus planos, porque já me agouraram por demais, e estou me tornando uma futura senhora cheia das crendices. Falo da minha necessidade, e se confias em mim, e se apostas em mim, intuirá que é para algo bom, alguma surpresa quiçá. Mas isto aqui precisa morrer, morreu, acabou, fim.

Eu sinto que fazendo isto um peso sairá das minhas costas. Eu sinto que dará saudades não poder compartilhar alguns poemas ou crônicas ou contos ou pedaços de livros para com vocês. Às vezes eu espero por um texto por tanto tempo para que ele exista, que acabo por acabar com ele neste negócio de publicação instantânea, embora a oportunidade de compartilhar seja deveras interessante e uma necessidade, no meu caso. Mas compartilhar meus textos aqui, não mais, talvez futuramente num outro sítio e de outra forma distinta.

Sorte para nós, foi muito bom, amo vocês,

Ivy Exner Ou Ivy Exner Martins

Quarta-feira, Janeiro 14, 2009

Fundidos no Meio

Saberás que serás tu
Quando não mais puder ser doutro alguém?
Saberás ser inteiro
Quando a fatalidade te cobrir de não o serdes mais indivisível?

Como cobrirás a mentira
De compartilhar-te de ti perante outros
Sem poderes nunca mais dar-te a ti aos demais?

Como serás no fingimento?
Coberto com uma capa dourada cintilante
Espalhando raios de ti sem se repartir?

Serás como uma rocha à espera
De um movimento alheio
De ventos, de água e de choque térmico
Para ter a sensação de algum movimento?

Fingindo sempre não soltar fumaça?

Ou farás força para transmutar-se numa coisa outra
Quebrando o estado de pedra
Quebrando o feitiço de Medusa que nos aflige a todos?

O que será de ti
Gritando aos quatro cantos, sem cantos num Mundo redondo
Que tudo volta para o mesmo ponto do qual partiu
E admitir como tantos que a lenda era factual?

Saberás de ti
Quando não mais te importares ser tratado como louco.

Mas, se te disser louco terás de voltar ao mesmo ponto
Reler não somente este poema, mas tantos outros.

Mas quando souber de ti
Saberás fundamentalmente que nada mais será como dantes
Estarás fundido no meio, mas sem nunca ser somente pedra ou rocha
Estarás em tudo, reverberando como ondas sempre a se mostrar.

Ivy Exner Martins 14/01/09

Terça-feira, Janeiro 13, 2009

Do outro lado do Rio

Morava um menino
De uma altura
Sem medidas para se medir

Quando a menina olhava para o outro lado do Rio
Jamais poderia prever
Que a distância deveria se fazer
Para que o menino ela pudesse conhecer

Agora do outro lado do Rio
A menina fita o antes
De mãos dadas com o menino
E a situação passada compreende
Com um sorriso era isto.

Os porquês de olhar para o outro lado
Ao invés de se ater para dentro
Era o menino que esperava por ela
Com uma rosa cravada entre os dedos.

Ivy Exner Martins 13/01/09

Vá catar conchinhas!

Toda menina merece este momento
De ter consigo um menino com paciência
Enquanto ela investiga uma orla inteira
Cismada de que nenhuma concha é igual a outra
E que está atrás de conchas especiais

Enquanto a menina cata conchinhas
Ela imagina que num momento de raiva
Seu par bem pode ter a sensibilidade
De mandá-la catar conchinhas ao invés de coquinhos

Pois então decide fazer uma pausa
Desistir das conchinhas e pegar uma pedra
E riscar na areia:
Ele e ela.

Ivy Exner Martins 13/01/09

Sexta-feira, Dezembro 26, 2008

Pois, pois

Eu gosto muito dos portugueses e gosto muito do Fernando. É engraçado tê-lo sempre à mão numa edição de obra completa em papel bíblia, porque eu sempre li livro de poesia como leio a bíblia: abro a esmo. E a poesia quase sempre me é melhor oráculo, acerta em cheio o momento em que estou, e todas as cartas assim, reunidas juntas no baralho, me parecem mais críveis e possuem maior caráter de premonição/ direção/ identificação:

Quem me roubou quem nunca fui e a vida?
Quem, de dentro de mim, é que a roubou?
Quem ao ser que conheço por quem sou
Me trouxe, em estratagemas de descida?

Onde me encontro nada me convida.
Onde me eu trouxe nada me chamou.
Desperto: este lugar em que me estou,
Se é abismo ou cume, onde estão vinda ou ida?

Quem, guiando por mim meus passos dados,
Entre sombras e muros quem me deu
À súbita visão dos mudos fados?

Quem sou, que assim me caminhei sem eu.
Quem são, que assim me deram aos bocados
À reunião em que acordo e não sou meu?

Fernando Pessoa, 19/08/30


Este é só um exemplo dos muitos dias que tenho passado com Fernando a traduzir com exatidão em poesia o que eu tenho passado. Às vezes eu tenho impressão de que ele me conhecia melhor do que eu, e eu nem existia. Imagino... ai! se tivéssemos tido a oportunidade de termos nos conhecido. Loucuras à parte, não seria tão louco assim dizer que devo tê-lo conhecido, pensando em reencarnação...

Às vezes percebo que colocam em descrédito a minha figura de escritora, porque acredito em tantas coisas do ocultismo. Às vezes até eu mesma fico num conflito de racionalidade exacerbada de não crer em mim e no Mundo paralelo a que percebo. Porque tal qual ele fez, por mais que a temática possa ser abordada, não pretendo levantar bandeiras por causas que não são minhas, embora me sirvam muito bem, e nestas horas me sinto uma aproveitadora de todas as facções que me servem: Astrologia, Numerologia, Cabala, Teosofia, Ordem da Rosa Cruz, Reiki, I Ching, Tarô, Runas, Espiritismo e Umbanda Branca.

E a vida vai seguindo neste dilema, o que me conforta um pouco é sentir que alguém além de mim também se sentiu assim. E que fala tão bem de todos os conflitos e sofrimentos que me perseguem.

Pois, pois, que não me sinto tão solitária assim.
Ivy Exner Martins 21/12/08

A boca que fala

A minha boca falou
O que a sua boca
Quase sempre teima
Em não colocar para fora.

Ivy Exner Martins 20/12/08

Sábado, Dezembro 20, 2008

Danças no precipício

Sonharam comigo sentada na beirada de um precipício com aquela cara de pulo-ou-não-pulo? Estava eu toda de branco, disseram que de repente eu me levantei e na beirada comecei a dançar. E quem sonhou comigo sentiu paz, uma onda de felicidade com minha dança em branco. Sonho profético da minha amiga profetisa. Se eu nego com tanta facilidade meus próprios sonhos, mais fácil seria renegar o sonho alheio para comigo. Mas eu confessei que o sonho fazia sim muito sentido.

Eu senti as agonias claras do fracasso durante bom tempo, porque eu troquei quem eu era por migalhas de amor, e eu não sou uma pomba nem passarinha nem ave nem nada que voe embora queira muito voar. Quem já caiu no engano amoroso sabe a sensação exata de como é libertador quebrar o vínculo para com quem te queria morto. E também sabe como é árduo o prosseguir quando já nos habituamos com o cativeiro. Parece que não há caminho algum e dá até alguma vontade de retornar para a gaiola. Eu estava ali mesmo: no precipício, e ali fiquei durante alguns meses a pensar se a minha queda não seria a solução. Mas é passado, já passou.

Agora estou ensaiando alguns passinhos na beirada do precipício.

Ivy Exner Martins 19/12/08

Quarta-feira, Dezembro 17, 2008

Fragmentada

Todos se casavam através de uma agência matrimonial
Eu entrava naqueles corpos fazendo às vezes
E casava com uma sensação
Que estarei eu fazendo aqui?

*

Pensei que seria horrível sentir este estranhamento
Pensei que mais horrível seria se ele estranhasse a mim

*

Correr o risco de apalpar no escuro?
Ou prosseguir com a sensação de expectativa
Num acordar que assim está bom assim
Mas poderá melhorar ou poderá piorar?

*

Se eu gosto tanto de caixinhas de surpresas
Não compreendo os porquês de:
Às vezes a vida de caixas me apavora tanto.

*

Se o sentido do sonho é o avesso do sonho:
É porque devo partir
Se o sentido do sonho é literal:
É porque devo permanecer.

*

Talvez eu esteja mais velha
Do que imaginava e tenha alcançado o estágio
Que antes tanto detestava.

*

Eu tenho medo do medo.

Ivy Exner Martins 17/12/08

Quinta-feira, Dezembro 11, 2008

A soma que não se deveria somar

Um erro somar solidão com solidão.

Não se pode colocar solidão numa outra pessoa solitária
E quando se faz a besteira de somá-las e ainda colocá-las juntas
Numa mesma casa, solidão com solidão:

Nenhuma estrutura por mais sólida que seja
Há de resistir a tal somatória insana
Mesmo que seja uma fortaleza: desaba!

Ivy Exner Martins 11/12/08

Segunda-feira, Dezembro 08, 2008

Anteparo

Marcos vive num estado de evitação, Anna vive num estado de enfrentamento. Enquanto juntos, eles, Anna e Marcos, davam as mãos num ato de apoio mútuo verbalizado num: eu vivo para você, recíproco. A vida fazia um sentido, raso, mas fazia sentido. Anna acordava, pensava em Marcos, ficava feliz, a vida era boa. Marcos acordava, pensava em Anna, a vida era danada de boa.

As mãos, aos poucos, foram escorregando, enquanto Anna questionava os porquês, Marcos dizia que nada estava acontecendo, tudo era uma paranóia de Anna, desconversava e mudava de assunto. E as mãos a cada dia que passava iam escorregando, Anna percebia milímetro por milímetro do afastamento entre elas, e Anna previa com dor o dia quando separadas as mãos estariam abanando um tchau. Marcos se ria e se riu até o dia em que as mãos não mais se apoiavam, não compreendendo a teoria das mãos que se tocam, mas de longe estão juntas, algo com campo vibratório e ondas magnéticas, Anna dizia.

Enquanto Anna afirmava que as mãos não mais estavam juntas, Marcos movimentava-se pelo desespero propondo movimentação, falando com empolgação sobre as maravilhosas transformações que haveria de fazer naquela relação, que as mãos ficariam mais juntas, que a mão esquerda dele ia endireitar e tudo ficaria bem. Anna concordava por dó e cansaço de tentar explicar para Marcos coisas inexplicáveis, coisas que jamais ele compreenderia. Talvez fosse este o motivo das mãos não poderem mais ficar juntas.

E no último dia, sendo que as mãos não mais juntas estavam, há quase duas semanas, Anna decidiu despedir-se, pôr um ponto final naquela história, ao invés de fingir que estava tudo bem. Deixou sua mão tocar o ar e acenou para a mão que antes apoiava e nem de longe Marcos percebeu que aquele era o grand finale. Anna, na semana seguinte acordava, pensava em Marcos, ficava triste, a vida acabou. Marcos, na semana seguinte, acordava, pensava em Anna e em como seria o fim de semana próximo deles, ficou feliz, a vida era boa.

Quando o fim foi consumado para ambos: Anna acordava, pensava nele e continuava triste, a vida não tinha sentido. Marcos acordava, não mais pensava nela, a vida era boa.

Atualmente Anna carrega consigo a tristeza pelo escorregar das mãos, carregando a certeza de que nunca mais poderá amparar com as mãos ninguém, enquanto Marcos carrega consigo uma saudade que não sabe precisar caçando uma próxima mão para se apoiar sem compreender, mas sentindo que nada será como antes e antes era muito bom.

Ivy Exner Martins 08/12/08

Sexta-feira, Dezembro 05, 2008

Mamãe não quer que ele case

- Dona Alzira, eu estou falando sério, a senhora está me entendendo bem? Eu a quero morta, aquela bruaca que está a levar meu filho para o mau caminho, eu sinto no fundo das minhas entranhas que ela trará somente infelicidade para a vida de meu filho, ela não o ama.
- Olha, não costumo fazer este tipo de feitiçaria não, mas fique sabendo que a senhora está avisada, embora eu cobre pelo serviço e a senhora me pague e quem faça seja eu: o retorno será para vós, exclusivamente para você. Está ciente disto?
- Sim, estou, não importa o que virá, eu a quero morta, porque ela estar longe simplesmente do meu filho não me é suficiente, e eu preciso dormir em paz. Quanto custa o trabalho e o que precisarei fazer ou comprar?
- Os meus serviços custam 450 reais e o material é à parte. Vou jogar os búzios aqui para ver o que será necessário, segure bem estas pedras e se concentre, pense na sua nora.

Dona Alzira joga os búzios e faz uma cara de espanto, mas sem aquele hum-hum típico a estrebuchar do imaginário coletivo sobre mães-de-santo, porém com a gordura característica daqueles que possuem a preguiça e a gula como modo de bem viver.

- Sua nora é um anjo, menina do bem, de coração puro, daquelas que não faz mal a ninguém, este vai ser um trabalho duro para fazer tombar alguém assim. Faremos um trabalho no lodo durante 3 luas minguantes, precisarei de 21 garrafas de cachaça, 63 velas pretas, 63 velas vermelhas, 63 pimentas, uma foto da moça e o máximo de número de fios de cabelos que conseguir da menina, pois você terá que costurá-los nas 63 pimentas, sendo em 3 vezes de 21.
- Bem, eu consigo, ela vira-e-mexe se instala na minha casa, é só entrar no quarto e retirar fios da escova de cabelo dela. E o que vai acontecer com ela?
- Depois da terceira lua ela irá minguar, definhar, como você queira, por isso quem há de costurar nas pimentas será vós, para quê enquanto costura, deseje o que quer que se suceda com a pobrezinha.
- Ótimo, seu dinheiro e muito obrigada. Volto semana que vem com o material e aproveitamos para que você comece logo isto, pois a lua minguará.

Dona Alzira fecha o portão e pensa que deve se arrumar para ir ao supermercado fazer umas comprinhas para a casa; a geladeira está tão vazia!

A sogra se vai para casa feliz, esperançosa de que as coisas vão dar certo. Afinal de contas, ela só está batalhando para a felicidade de sua cria, não é justo que anos de dedicação dela se escoem pelo ralo, elas perdeu tanto por causa dele, sua juventude perdida no fogão e no corre-corre para lá e para cá com Neto, agüentou as traições do marido constantes para garantir a renda familiar e tudo o que há de melhor para a sua criação. Se ele é um arquiteto de sucesso hoje, é por causa dela, só dela, e ela não há de permitir que a sirigaita o roube. Já tinha feito de um tudo, batalhado pelas vias dos dramas e dos conselhos. Sua última tentativa foi uma carta que no fim virou um tiro que saiu pela culatra, pois eis que Neto determinou-se a casar de uma vez por todas e começou a planejar, coisa que ela mesma sugeriu, eis a carta dela:

Oi, meu filho.

Espero que esteja bem. Fiquei muito triste com a briga que tivemos antes de você ir viajar com Amália, não posso esperar seu retorno, preciso abrir meu coração para você.

No calor das emoções acabo falando de uma maneira que você acredita que estou falando por pura emoção. Mas, gostaria muito que você acreditasse que estou sendo totalmente imparcial e fria para pensar algumas coisas em relação a você. Primeiramente, vejo você como uma pessoa e não como filho! Nos erros que cometemos sempre tiramos algumas experiências, e sempre queremos passar estas experiências para as pessoas queridas, para que elas não cometam os mesmos erros. Já fiz muita coisa que poderia ter evitado, e como eu te amo, o que puder fazer para que você evite certos erros, o farei.

Não quero que você pense, nem por um minuto, que sou contra o seu casamento com a Amália. Mas, a maneira que vocês estão fazendo é que pode ser mudada. Fazer as coisas por impulso ou sob pressão, é a pior coisa que podemos fazer. Vocês são novos e com um caminho muito longo para percorrer, e esse caminho pode ser mais leve se vocês tiverem um pouco de paciência agora. As pessoas não podem brigar para ficarem juntas e sim para se separarem. Dá para entender? Agora seria hora de vocês estarem totalmente unidos por um mesmo ideal.

Infelizmente, como está este mundo, precisamos pensar em como nos sustentar, como alcançar nossos objetivos financeiros. É claro que nunca poderemos deixar o amor de lado. Pois, é ele que nos dá força para lutar.

Queria muito que você fosse sincero consigo mesmo. Você sabe o quanto está sendo difícil sua relação com a Amália. Isso você não pode negar. Ela é uma pessoa que pode melhorar, mas mesmo assim não é uma pessoa que vive "numa boa" com os outros. Você é testemunha de quantas pessoas com quem ela já entrou em atrito e, sem motivo. Mas tirando isso de lado, o que eu mais me "preocupo" (não leva ao pé da letra essa "preocupação") é que você está sendo colocado na parede para fazer uma coisa que tenho certeza que não é agora que você quer fazer. Não tenha medo de falar o que você pensa. Coloque em questão algumas coisas que você não tem coragem de colocar para ela.

Viver a dois é complicado, mas muito bom quando realmente nos sentimos leve. O casamento não é para termos problemas, mas sim para construirmos juntos.

Essa construção tem que ser projetada por vocês. E é isso que não vejo.

Era mais ou menos isto que queria te falar na última vez que nos falamos e acabamos por brigar. Espero que possamos conversar quando você voltar como amigos, sem você ficar com o pé atrás. Estou agindo com você como sempre agi. Sou sua amiga e já te provei isso em várias situações.

Te amo muito,
Beijos,
Da sua mamãe, Fabiana.


E o que ela recebeu em troca por ter aberto seu coração para seu filho? Um cartão agradecendo a carta, dizendo que haviam ficado noivos em Porto Seguro e que a carta lhe serviu como iluminação, ficou noivo e com Amália acertou os ponteiros. Voltaram da viajem com gás total, começaram a economizar sem mais saídas e se enfiando na casa dela, e o resultado disto foi que em seis meses os dois compraram um terreno, e depois de um ano e meio a casa estava pronta. Os móveis eles já tinham, ela bem que tentou colocar vários defeitos na casa, mas seu filho é do ramo e sabe bem levantar uma casa de um jeito bom e barato, usou muito material de demolição. Restou-lhe os preparativos do casamento, e Fabiana como boa sogra que é, acabou “ajudando”, e usou a família e uma lista gigante como empecilho, mas Amália bateu o martelo e Neto apoiou, concordaram que não tinha mais como adiar, afinal de contas a casa estava pronta, e a festa de casamento pouco importava, mas Fabiana fazia questão e por chantagem conseguiu o gosto, era bom não abusar da sorte antes que eles desistissem da festança e casassem no civil apenas. Fabiana não se conformava, tinha o mesmo direito que eles, de fazer valer sua opinião, e como não davam ouvidos a ela, era justo que fizesse o que fosse para se fazer valer, e é como dizem, os fins justificam os meios. Ser organizadora da tragédia teria quem sabe alguma serventia. Naquela noite, Fabiana não dormiu, ansiosa para que a semana corresse rápido e a lua minguante brilhasse no céu.

A lua minguante brilhou, toque-toque na casa de Dona Alzira.

- Pode entrar, minha querida. Deixa que eu te ajude com as suas sacolas. Como foi de semana, correu tudo bem?
- Ai, Dona Alzira, espero que a senhora resolva esta situação mesmo, viu? A casa dos dois ficou pronta, a sorte é que pelas crendices consegui convencê-la que não é bom estrear a casa antes do casamento, do contrário já estaria privada de vez do convívio com meu filho amado.
- Hum, ela é crente... Isto facilita muito, fique calma, vai dar tudo certo. Deixa eu conferir aqui se está tudo certo.

Tudo certinho. Fabiana vai se embora confiante, vibrou bastante enquanto costurava os fios de cabelo de sua nora nas pimentas. Afinal de contas, Dona Alzira prometeu aparições de resultados após uma semana e conclusão de tudo após o terceiro trabalho no lodo na lua minguante.

Deu uma semana e: batata! Como Dona Alzira porreta disse. Amália começou a ter desmaios repentinos, várias vezes ao dia. Neto ficou feliz a princípio, dizendo que viria aí o Bisneto. Enquanto quem ria de felicidade era Fabiana, sabendo muito bem o que estava acontecendo e o que estava para acontecer.

Depois de um mês após sua encomenda começou a ficar um tanto o quanto triste porque percebia que a doença misteriosa de Amália estava por fazer ser filho sofrer, mas a fraqueza de uma nora a quem a sogra desgoste lhe é uma arma de predileção (muito superior ao amor que sente pela cria), e não fica óbvio o desgostar, pois é só uma questão de “trabalhar” a fraqueza da adversária. Passou então a dar conselhos para o filho, que Amália era doente mental que inventava dores, pois afinal de contas os médicos diziam que ela nada tinha, e eles estudam demais, sempre sabem das coisas, e que era bom que ele cancelasse o casamento, que pensasse seriamente em cancelar, pois como ele casaria com alguém assim?, seria esta a mãe de seus futuros filhos?- ele tinha que pensar nessas coisas. Neto começou a crer na mãe, não pelas ladainhas, mas estava desconfiando que Amália estava é querendo largar o emprego e ficar de papo para o ar, pois só não sentia dores e nem desmaiava quando estava se preparando para futuras empreitadas de âmbito doméstico.

Enquanto isto Amália sofria com dores que não se sabe de onde vinham, mas ficava feliz quando pensava que a data estava próxima e que em breve estaria bem e na sua casa. Era do tipo romântica que acreditava que casamentos têm o poder de salvação. Seus pais estavam muito preocupados com ela e rezavam sempre pela sua recuperação. Mas ela só fazia piorar e para complicar tudo seu noivo parecia estar meio distante, precisavam fazer alguma coisa pela filha deles, e com fé: sua mãe foi lá e fez. A mãe de Amália foi atrás de um pai-de-santo pedir uma orientação, um milagre, pois naquele pé, qualquer macumba estava valendo, mas eis que ele diz que; só precisava desfazer um feitiço, que não era necessário um milagre não. Contou tudo o que foi feito para Amália, desfez o feitiço e recomendou uma série de coisas para ela fazer por modo de ter proteção, acender algumas velas e tomar uns banhos de defesa. Pai João não cobrou nenhum vintém e Amália no dia seguinte começou a dar ar de melhoras, quando sua mãe lhe contou tudo, ela acreditou, porque não tinha tomado remédio nem nada e tudo se foi para bem longe, estava claro que era obra de Pai João.

- Minha filha, pensa bem, não é o caso de você desistir de uma vez do Neto e acabar com tudo? Isto é muito sério... Você quase morreu por causa da mãe dele, será que você o ama tanto assim para correr tanto risco?
- Mamãe não quer que ele case? Pois então: é agora que caso com ele. Esta é minha maior vingança, e eu vou dar o troco, a minha fase de boazinha passou.

Quando Fabiana ficou sabendo pelo filho da melhora de Amália quase desmaiou. Disfarçou o quanto pode seu abatimento e foi correndo tocar na casa de Dona Alzira. Chegou lá aos berros:

- Sua charlatã! Eu quero meu dinheiro de volta, quando dá três luas ela do nada melhora? Que absurdo é este?
- Calma, querida, entre e se acalme um pouco. Eu tiro búzios e vemos o que foi que aconteceu.
- Eu não quero búzios nada, sua incompetente, eu quero meu dinheiro de volta!
- Entre, veremos isto, por favor, sem escândalos!
- Ok, eu entro. Mas fique sabendo que não vou pagar esta consulta, não vou! Você não me arranca nem mais um centavo.

Dona Alzira tirou os búzios e descobriu que era feito do Pai João, seu concorrente que lhe tirava muitos clientes porque não cobrava vintém. A nora de Fabiana havia descoberto tudo, então sugeriu cautela para a sua consulente, para não dar na vista e deixar a guerra declarada. Apesar de Fabiana exigir um novo feitiço de imediato, Dona Alzira disse que só faria um outro dali uns três meses e deu explicação que não convém ao caso, pois não passou de embromação da mãe-de-santo para não confessar para a cliente que morre de medo de Pai João, era somente medo da coisa sobrar pra ela e ficar com todas as ziquiziras da questão.

Mamãe não quer que ele case, mas ele se casou.

Amália ficou feliz da vida entrando na igreja com a marcha nupcial e vendo a sogra sonsa no altar. Agora ela seria feliz para sempre no seu ninho de amor e a sogra que se explodisse de raiva, mas estranhamente a sogra aparentava felicidade, até possuía no canto dos lábios um sorriso de escarninho, coitadinha da Amália que não imaginava o que estava por vir. Porque já tinham se passado o prazo que Dona Alzira pediu e o feitiço já tinha sido feito.

Neto nunca mais, depois que saiu do altar, deu um beijo sequer em Amália. A lua de mel foi com ele na nova casa dormindo no sofá e Amália sozinha no quarto. Os dias seguintes foram exatamente iguais, mas sem que agora ele lhe dirigisse a palavra e quando chegava em casa ligava para a mãe e contava como foi o seu dia como se Amália fosse transparente. Depois de um mês de gritos solitários Amália não agüentava mais, pedia justificativas e ele nunca respondia nada, deixava ela falando sozinha, ignorava-a, e quando ela forçava a barra ele saía e não voltava para casa. Amália concluiu que ele tinha uma amante, que a estava traindo, e não entendia os porquês, antes do casamento, mesmo que esporadicamente e sem aquele pique ele transava com ela numa boa, tinham um bom relacionamento e ele tinha lhe dado um vibrador. Resolveu procurar por Pai João que não lhe disse nada com nada, algo em parábolas que aparentava significar isto: o problema não é com você, não posso fazer nada. Amália ficou decepcionada com Pai João.

Três meses depois do casamento seus pais descobriram o que andava acontecendo com Amália, e a obrigaram a sair da casa e pedir a separação, porque não a queriam ver novamente no fundo do poço, pois ela tinha família e não precisava disto. Amália obedeceu e de volta à casa de seus pais entrou em depressão profunda, se achava culpada por tudo o que aconteceu, ela era feia e tudo o que tinha de pior, não se conformava. O que afinal tinha feito de errado? Na hora da separação factual, na frente do juiz, Amália ficou indignada com as alegações de Neto que a dizia neurastênica e fria! Como pode? Mesmo ele não falando com ela, fez de um tudo por ele, lavava, passava, cozinhava e ainda se arrumava, passeava pela casa com lingeries na expectativa dele tomar alguma atitude até. Chamou-o de frouxo na frente do juiz, e este lhe pediu decoro. E ela lhe pediu uma pausa.

Nos bastidores lá estava Fabiana, veio falar com Amália e lhe implorou que não desse a separação para Neto, falava com uma voz esquisita e Amália perguntou o porquê, é porque tinha acabado de passar por uma operação, sua futura ex-sogra sacramentada no papel, teve câncer na garganta e estava fazendo quimioterapia. Mesmo assim não se comoveu e disse que não tinha volta, estava tudo acabado e a chamou de cínica, que era muita cara-de-pau dela, depois de tudo que ela tinha lhe feito pedir para que voltasse com o filho. Voltou para sala, parou com o choro e assinou os papéis.

Tempos depois descobriu que o segundo feitiço que foi feito por Dona Alzira foi para que Neto revelasse o seu íntimo, e eis que antes de se casar com Amália ele começou a ter um caso com seu amigo André, com quem hoje mora. Dona Alzira tinha visto nos búzios a real natureza de Neto, e como sua mãe não queria pagar pelo segundo trabalho, achou por bem ficar de boa, resolver a questão e não ter que provar no depois, a ira de Pai João.

Ivy Exner Martins 05/12/08

Desnudo capitalizado

Um dia ficaremos nus?

E se existe céu no além vida?
E se existir prestação de contas
De tudo o que se fez por cá?

Que saldo você terá?
Se na sua prestação de contas no lado de lá
Tudo que justifique no lado de cá
Esteja correlacionado
Com a palavra DINHEIRO?

Ivy Exner Martins 05/12/08

Dezembro chegou

Mas sempre me parece um mês que nunca chega de fato, talvez porque eu perceba demais esta energia no ar de um porvir, como se o presente fosse o futuro, que nunca é o dia seguinte, talvez seja o mês que vem, mas talvez não, porque é pós-festa-de-fim-do-ano-que-passou e depois é carnaval.

O que para mim não é mais nenhum problema por causa do ano que se passou, ano passado. Dezembro, Janeiro e Fevereiro serão sempre meses ruins de lembranças que teimam em ficar na memória pairando na cabeça como se fossem o momento presente. Mas talvez não. Talvez seja porque este ano é o seguinte do que passou. Talvez ano que vem o passado seja ausente.

Aí eu volto a reclamar destas gentes com cabeça no amanhã, porque eu quase sempre estou voltada para a realidade presente. Dezembro chegou e nunca me parece crível e eu odeio isto hoje duplamente.

Ivy Exner Martins 05/12/08

Terça-feira, Dezembro 02, 2008

Dissabor palatável

Eu me esqueci das perguntas
E lancei-me num mundo de respostas
Numa tentativa de ser mais verdadeira
Com o que há debaixo de mim e com os outros
Porque as perguntas profundas
Nunca poderão ser respondidas por alheios
Por mais semelhança que aconteça
Entre os perguntadores ou na questão.

Ivy Exner Martins 02/12/08

Desnecessárias fotografias

Se imagens tão nítidas
Povoam a sua cabeça
Como se o momento passado
(Bem vivido)
Fosse sempre o momento presente

Quem compreende
Que sorrisos e poses quase nunca correspondem
Em importância no viver
Vai bem compreender o verso que se segue
E encerra o poema:

A gente quer viver uma vida que não valha fotografia.

Ivy Exner Martins 02/12/08

Segunda-feira, Dezembro 01, 2008

Uma fitinha para lembrar




Sempre de usarmos camisinha. Porque por mais que o tesão seja de matar e até o sexo seja um sexo de outro mundo: nada, nem ninguém, vale o risco de contrairmos aquele terrível vírus.

Sexta-feira, Novembro 28, 2008

Um sonho pequeno para um sonho grande

Estávamos numa festa e estávamos sentados bem próximos como se fôssemos um casal de namorados. Tinha um casal conosco na mesa em que estávamos, que às vezes entravam na nossa conversa. Na verdade, não era bem uma conversa, ele estava meio melancólico e um pouquinho alto de bebida e estava a caprichar no monólogo ao qual eu prestava muita atenção. O meu menino me contava sobre uma enorme fila de cinema de um filme que ele não conseguiu assistir porque não deu tempo de seu pai comprar ingresso antes que o filme começasse a ser exibido, ele era pequeno, fato ocorrido na sua época de guri. Ele até falou sobre algo meio triste sobre uma época de guerra e seus olhos marejaram. Foi aí que ele falou desconversando, quando já estava com uma de suas mãos repousando na minha perna, que era por causa do jeito que eu olhava para ele que o fazia fugir de mim, que o meu olhar lhe causava medo, como se eu soubesse tudo quando olhasse para dentro de alguém. Cantou uma música que não me recordo, mas que tinha refrão de amor, era algo triste e fatalista, devia ser alguma música do Chico. Ele levantou e foi para um quarto. Imagino que a festa era na casa dele, porque quando fui atrás dele, ele estava nu no quarto com a porta aberta. Eu encostei no batente da porta e fiquei olhando para ele. Ele me convidou para entrar, eu entrei, ele espirrou um perfume no ar e perguntou se eu gostava. Eu passei pelo perfume e disse que sim, mas que preferia a sua bunda. Fechamos a porta do quarto e o sonho acabou.

Ivy Exner Martins 28/11/08

Segunda-feira, Novembro 24, 2008

Dormência

Sinto este formigamento na perda esquerda que não cessa, e às vezes tenho vontade de cortar a perna porque este seria o modo mais prático de resolver a questão e revelaria o meu desprendimento para com o meu próprio corpo. Ontem eu vi um casal apaixonado no supermercado, um casal tradicional de meia idade que me despertou. O homem tinha o braço esquerdo sem mão. Enquanto faziam compras, a sua esposa quase o tempo todo o tocava com as mãos ou encostava a sua cabeça na cabeça dele, às vezes revezando e tocando com a cabeça o ombro dele. O roçar de cabeça que ela fazia nele, parecia carinho de gatos. Talvez se eu tivesse chegado mais perto, tivesse escutado ela ronronar, talvez. Aí eu fico pensando em cortar a perna esquerda que formiga sem parar, talvez assim eu fosse mais fácil de amar, estimulasse no outro alguma compaixão e um homem viesse até mim a roçar a sua cabeça na minha, querendo se aninhar.

Estive sentindo dificuldade em falar sobre sentimentos porque quase sempre eles estavam ligados a alguma patologia. Estava, agora não mais, porque sinceramente não quero mais seduzir ninguém com o aspecto positivo que há em mim, porque todos precisamos de outro alguém que bem saiba lidar com nossas manias e obsessões. Tenho tentando convencer a árvore de flores roxas a ressuscitar, mas ela morreu mesmo, não tem conversa, os últimos brotos que vi nela nada mais eram do que o tão comentado: último sopro de vida. Me é sempre assustador lidar com a morte, embora eu não tenha tanto medo dela, porque se as coisas não derem certo, ao menos é o que penso-: ela é a segunda opção. Eu tenho a impressão que estou sempre com o pé na cova, eu vivo com o pé na cova, embora quase sempre tudo pareça estar bem comigo, mas o fato é que a vida quase sempre me deprime, quer dizer, não a vida, mas as pessoas, e inclusive eu mesma, me deprimem.

Tenho evitado falar sobre o que me deprime numa tentativa sem sucesso de não me deprimir. Talvez alguns evitem os assuntos que os deprimem para se protegerem, infelizmente eu não tenho muito senso de autoproteção. É mais cansaço mesmo. Cansaço de falar sobre. Cansada de ver os homens destruírem a natureza bem embaixo do meu nariz, de derrubarem uma amoreira e horta para limparem o terreno porque uma torre nova se quer erguer. A torre não será erguida, mas nem a horta nem a amoreira irão retornar, estes fatos não-retroativos-repetitivos me cansam. A insanidade humana me cansa, principalmente a insanidade humana do deixa-para-lá, nada nunca é importante se é pequeno, como se ações maiores não fossem o mero resultado de um somatório de coisas pequenas. ADIÇÃO, lembra? A degradação da natureza é um somatório de coisas, e a horta e a amoreira e a árvore de flores roxas fazem parte disto.

Até eu faço parte disto, embora às vezes me esqueça. Virar uma mulher saci não deve ser a melhor solução para mim, mas é sempre interessante dizer o que está na mente. O lance é o que fazer com este amontoado de coisas, avaliar o que bem deve me constituir, e encontrar alguma leveza que me tire desta maré de radicalismos que me paralisam. Enquanto não se resolve nada, a perna esquerda continuará a formigar. Talvez seja uma reação, um ato-reflexo da mente emocional que não quer sair (ou eu é que não permito?).

Ivy Exner Martins 24/11/08

Domingo, Novembro 23, 2008

Mágoa do além túmulo

Carregarei comigo a tristeza
Do amor não declarado
Substituído por um qualquer
Num ato de covardia
De ir para o mais fácil
Ao invés de correr atrás do que se quer.

Ivy Exner Martins 23/11/08

Sexta-feira, Novembro 14, 2008

Os consolos no muro

O medo e as saudades
Serão suas eternas companhias

Porque é muita a covardia
Para aceitar a imprevisibilidade do Mundo

Se arriscar não é seguro.

Ivy Exner Martins 14/11/08